Foto: Alex Farias/PhotoGP

Na última sexta-feira, 15, o Kartódromo Ayrton Senna, localizado no CAVE, no Guará, foi lacrado pela Administração Regional da cidade-satélite. O argumento foi o vencimento da concessão do espaço à empresa “Guará Motor Clube (GMC)”, que tinha essa autorização há mais de 20 anos. Ocorre que essa concessão venceu no fim de 2019 e, só agora, em meio à pandemia do novo coronavírus, o kartódromo foi interditado. Todos os funcionários que trabalhavam no local receberam ordem de despejo.

O presidente da Federação de Automobilismo do Distrito Federal (FADF), Luiz Caland, explicou para a equipe da Esportes Brasília os motivos da interdição do kartódromo na última sexta-feira. “Por uma demanda da Controladoria do GDF, segundo a Administração do Guará, onde solicitou a desocupação de todo kartódromo com o intuito de legalizar a ocupação por se tratar de área pública”.

Pilotos e equipes protestaram pelo fechamento do Kartódromo Ayrton Senna – Foto: Divulgação

Durante a entrevista, Caland também lamentou a falta de investimento no esporte. “Estamos procurando apurar também sobre esses motivos e como vai ficar a situação. Ninguém olha pro automobilismo. Qual empresário você acha que vai pegar seu dinheiro e investir em uma kartódromo de Brasília? As pessoas desse meio, hoje em dia, veem o automobilismo como um grande negócio”, completou.

Túlio Paiva, que é chefe de equipe, trabalhava no kartódromo desde 1990 e comentou sobre a decisão da Administração do Guará. “A GMC, simplesmente, organizava as corridas e realizava as provas de kart em Brasília. Com o cancelamento deste convênio, o governo achou que todo mundo que está dentro do kartódromo é invasor de área pública. Porém, todos esses trabalhadores e pessoas que estavam dentro do kartódromo ocupam essa área há quase 40 anos”, salientou.

Túlio ainda completou: “Tem toda uma história por trás disso aí. Não podemos deixar que sejamos tratados como delinquentes”, afirma.

Kartódromo Ayrton Senna já foi sede de várias provas de automobilismo, sendo referência para pilotos como local de treinos e eventos – Foto: Alex Farias/PhotoGP

O presidente da Associação dos pilotos de Kart de Brasília, Dibo Moisés, cobra com veemência as autoridades públicas do Distrito Federal sobre o fechamento da kartódromo do Guará, e divulgou a nota de repúdio (veja no final da matéria) sobre o ocorrido. 

O piloto Rodrigo Piquet, que faz parte da Dibo Kart Team e treina no Kartódromo, pediu para que o governador do DF, Ibaneis Rocha, interceda a paralisação das pistas, lembrando de personalidade da capital federal que começaram no local. 

O piloto da Fórmula 1 Felipe Nasr, que teve uma carreira vitoriosa no kart, também comentou sobre o assunto. Veja o vídeo abaixo. 

NOTA DE REPÚDIO À ATITUDE DA ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DO GUARÁ 

“Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro”. (Albert Camus) 

Inicialmente, destaca-se que o Kartódromo do Guará-DF sempre foi o palco de muitas alegrias, rivalidades e adrenalina. O referido cenário foi responsável pelo início de carreira de diversos pilotos, inclusive com participação na tão sonhada Fórmula 1, como por exemplo Nelsinho Piquet e Felipe Nasr. 

Além disso, é local frequentado por diversas lendas do automobilismo, tais como: Nelson Piquet, Roberto Pupo Moreno, Vitor Meira, entre outros. Consequentemente, o automobilismo é considerado como cultura e paixão nacional do brasileiro. Contudo, na data de 07/05/2020, para a infelicidade de muitos, a administração regional do Guará-DF enviou uma notificação, por debaixo de cada porta dos boxes, na qual ordenava a desocupação no prazo de 30 (trinta) dias de 51 (cinquenta e um) boxes. 

Por conseguinte, em 15/05/2020, descumprindo o próprio prazo concedido, a própria administração regional soldou o portão de acesso ao Kartódromo de forma clandestina, acabando por ferir preceitos constitucionais do livre exercício do trabalho , bem como se apropriando indevidamente dos bens que ali se encontram. A atitude da administração acabou por desrespeitar o princípio do contraditório e ampla defesa constitucionalmente garantidos, visto que já executou a determinação sem que houvesse defesa por parte dos integrantes do Kartódromo.

 Além disso, a administração do Guará sequer se deu o trabalho de apresentar os motivos pelos quais não possui a intenção de renovar a concessão, lembrando que a motivação é requisito essencial dos elementos do ato administrativo, sendo certo que a administração somente é concedido o poder de agir dentro dos limites da lei , de acordo com o texto constitucional. 

A bem da verdade, não há motivos para não haja uma renovação da concessão da utilização do espaço, pois há cerca de 48 (quarenta e oito) anos este espaço é exclusivamente utilizado para a prática de competições e treinos tanto de kart, quanto de direção defensiva pelo corpo policial.

 Nesse sentido, nunca é demais lembrar que a prática das corridas de kart é considerada como esporte e a atitude da Administração Regional do Guará é o mesmo que querer demolir o espaço do Ginásio Nilson Nelson. 

O Kartódromo localizado no Autódromo Internacional Nelson Piquet encontra-se fechado, aguarda licitação para a continuação de suas atividades, por óbvio, o único local de Brasília que os praticantes do esporte possam realizar competição é no Kartódromo do Guará.

 Em 1987, a UNESCO inscreveu a Capital Federal do Brasil como patrimônio histórico da humanidade, para incentivar a preservação de bens culturais e naturais considerados significativos para a humanidade. Tal atitude tem por objetivo permitir que o legado que recebemos do passado possa ser transmitido às futuras gerações. 

Importante ressaltar que a referida administração esquece que são mais de 200 trabalhadores que não mais terão trabalho para sustentar suas famílias, além de pilotos que deixarão de praticar o esporte, tudo isso por uma atitude unilateral, sem qualquer tipo de fundamento é extremamente prejudicial para o automobilismo. 

Difícil acreditar que a pista mais antiga de kart de Brasília vai deixar de existir por conta de uma decisão impensada. Igualmente é difícil de acreditar que o Governador do Distrito Federal não tomará uma atitude e deixará que mais de 200 famílias sofram, bem como acabe com um patrimônio histórico e cultural de Brasília, uma vez que o kartódromo do Guará é referência e cartão postal da capital federal. 

Não é preciso lembrar que o país encontra-se em estado de pandemia provocada pelo COVID-19, o qual é responsável pelo aumento exorbitante do desemprego. Logo, a atitude desmotivada da administração tem o objetivo de subir ainda mais com a curva do desemprego. 

Tarefa difícil acreditar que o Governador eleito com a ajuda da comunidade do Kartódromo venha a agir com a atitude de deixar pais de família desempregados e famílias à beira do desespero, sem saber de onde vão tirar seu próprio sustento e de sua família. 

Além do mais, sabe-se que o país encontrará uma recessão na economia e é notório que a prática do automobilismo sempre foi de grande ajuda na movimentação da aquisição de bens e serviços o que, sem sombra de dúvidas, ajudará o Brasil a se reerguer quando o estado de pandemia acabar. 

Não se vislumbra qualquer possibilidade de atuação do Governo do Distrito Federal senão o acolhimento da causa mais de 200 famílias que estão com chances reais de ficarem desamparadas pela inércia do Poder Executivo. Encerrar as atividades do Kartódromo é o mesmo que enterrar as chances de vermos novos pilotos, agravar ainda mais a crise do automobilismo e acabar com uma paixão nacional. 

Portanto, requer-se que seja revogada a atitude da administração pública, com a total anulação da decisão que determinou o despejo, bem como com a retirada da solda ilicitamente e clandestinamente efetuada, com o fim de se continuar com os trabalhos praticados normalmente neste Kartódromo do Guará.