Desde que foi instaurado no futebol o tão temido VAR, do inglês Árbitro Assistente de Vídeo, o esporte se viu tomado por polêmicas e discussões que não acabam mais. O que era para ser um importante auxílio para diminuir os erros, decidiu jogos anulando gols, aumentando o tempo das partidas e deixando ambas as torcidas aflitas a cada vez que o árbitro coloca a mão na orelha, gesto tradicional de que um lance está sendo checado. Com tamanha importância e protagonismo, só nessa Copa América, 20 gols foram anulados, mudando a classificação e, por consequências os confrontos.

No primeiro ano na competição Sul-Americana, foram 20 gols com interferência do VAR, sejam marcados, anulados e revisados, somando os pênaltis que foram ou não assinalados. Um número alto, considerando que tivemos 24 partidas. Ou seja, colocando em números, a média foi de 0,83. Você sabe em quais jogos ele atuou? E se a tecnologia não fosse utilizada, qual seria a final? Quem seria o campeão?

Como foi na Copa América

O VAR cansou de trabalhar. Foi utilizado de maneira exaustiva e mudou, muitas vezes corretamente, o resultado de inúmeras partidas. Consequentemente, como era de se esperar, alterou, também, a classificação e, sem titubear na afirmação, o campeão da competição. Foram marcantes, por exemplo, partidas com três, TRÊS gols anulados que, sem a tecnologia, possivelmente passariam e, talvez, causassem uma polêmica maior do que o auxílio da “telinha”

Primeira fase

Nas primeiras partidas da competição, vimos o VAR entrando em ação diversas vezes. Quem não se lembra dos memes acerca da “ajuda” que a tecnologia deu à Venezuela. Contra o Peru, no primeiro jogo, foram dois gols anulados. Já contra o Brasil, foram outros dois. O primeiro tento, marcado por Firmino, foi visto dentro das quatro linhas. Mas, será que todos foram corretos?

VARnezuela (4 gols anulados mantiveram as redes da equipe intactas)
No primeiro jogo da equipe na competição, o Peru abriu o placar duas vezes. Primeiro com Gonzáles e depois com Farfán. No primeiro lance, o que chama mais a atenção é o fato de os venezuelanos reclamarem de falta no goleiro. Mas, após a revisão, a alegação foi de impedimento. No segundo, após a cabeçada do atacante peruano, o VAR chamou a atenção ao anular o gol por posição irregular do jogador que cruzou.

No segundo, contra o Brasil, o árbitro de vídeo também trabalhou bastante. No segundo tempo, após muita pressão, Firmino e Gabriel Jesus balançaram as redes. O camisa 9 marcou aos 15 minutos após passe do camisa 20. Aos 43, no apagar das luzes, Coutinho marcou mais um, após, também, bater no atacante do Liverpool. Porém, a “telinha” apontou a posição irregular do jogador nos dois lances.

Bolívia x Peru (Pênalti e gol a favor da Bolívia)
Aos 27 minutos do primeiro tempo, a Bolívia se lançou no ataque. Saucedo recebeu a bola e chutou para o gol. Antes que ela pudesse oferecer riscos ao goleiro Gallese, a redonda bateu no braço do marcador. Antes de ter o pênalti marcado, o bandeirinha apontou o impedimento. Porém, o VAR chamou o juiz Roddy Zambrano e alterou a marcação e colocou a bola na marca da cal. Esse foi o gol que abriu o placar do confronto.

Brasil x Bolívia (Pênalti e gol a favor do Brasil)
No primeiro minuto do segundo tempo, Richarlison cruzou e a bola bateu na mão do zagueiro. Néstor Pitana precisou rever o lance no VAR e marcou a penalidade máxima para o Brasil. Coutinho, após a confirmação da infração, colocou os brasileiros à frente no placar.

Colômbia x Paraguai (Gol anulado a favor do Colômbia)
A Colômbia, até então uma das grandes favoritas ao título da Copa América, enfrentava o Paraguai em Salvador. Aos 23 minutos do segundo tempo, James Rodríguez lançou de trivela para Luis Diaz aumentar a vantagem da seleção. Porém, após checagem na TV, o árbitro viu um toque na mão do atacante colombiano e anulou o gol.

Argentina x Paraguai (Pênalti e gol para a Argentina)
Com dez minutos de jogo, Lautaro Martinez chutou para o gol e a bola resvalou no braço de Piris. O Árbitro Wilton Pereira de Sampaio foi conferir o VAR e marcou o pênalti que culminou no único gol de Messi na Copa América.

Paraguai x Catar (Gol anulado do Paraguai)
Aos seis minutos de jogo, o Paraguai vencia os asiáticos por 1×0, quando Derlis González recebeu lançamento de Balbuena e fez bela jogada com Almirón. O jogador, que atua pelo Santos, marcou o gol. Porém, o camisa 10 estava impedido no lançamento do zagueiro, ainda na origem da jogada, conforme delatado pelo VAR.

Japão x Equador (Gol confirmado para o Japão)
As duas equipes estavam lutando pela classificação. Nakajima abriu o placar aos 16 minutos do primeiro tempo após sobra de dividida entre Okazaki e o goleiro Dominguez. No primeiro momento, o bandeira acusou um impedimento e anulou o gol. Após a frustração dos japoneses, o VAR reviu o lance e reacendeu a festa dos orientais.

Uruguai x Japão (Pênalti marcado para o Uruguai)
O Uruguai contou com a ajuda do VAR para empatar o jogo contra o Japão. Isso porque a tecnologia fez com que André Rojas, que comandava a partida, voltasse atrás e marcasse pênalti em Cavani após dividida com Ueda. Na cobrança, Suárez balançou as redes e empatou a partida em 1×1.

Uruguai x Equador (Gols anulado e confirmado do Uruguai)
No início da partida, Nandez recebeu cruzamento de Cavani e abriu o placar. Porém, o camisa 21 estava impedido e o gol foi bem anulado pelo VAR. Já na parte final do jogo, aos 33 minutos do segundo tempo, Suárez recebeu na linha de fundo, cruzou para Cavani que, por sua vez, cruzou para Pereiro, que ajeitou para trás. A bola bateu em Mina, que fez gol contra. Mas, para estar na nossa lista, esse gol teria que ter sido revisado em algum momento. E aconteceu na origem do lance, quando Suárez tocou na bola. Os uruguaios só puderam comemorar após Anderson Daronco assistir ao lance novamente e confirmar o gol.

O brasileiro Anderson Daronco foi o árbitro de Uruguai x Equador, na primeira fase da Copa América – Foto: Wander Roberto/CA2019

Quartas de final

Colômbia x Chile (Dois gols anulados do Chile)
Colômbia e Chile fizeram, se não o mais, um dos jogos mais esperados da segunda fase da Copa América. E assim foi. Com superioridade em campo, o Chile atacou, criou e até chegou a balançar as redes. Mas foi em vão. No primeiro gol, Sánchez recebeu a bola, cruzou para área e, após o bate rebate a bola sobrou para Aránguiz completar para as redes. Porém, acertadamente, o árbitro reviu a jogada e assinalou impedimento do jogador que cruzou para dentro da área. Já no segundo, Vidal marcou após sobra de Maripán. Entretanto, após consultar o VAR, ele marcou um toque na mão do zagueiro colombiano e levou a disputa de uma das vagas para a semifinal para os pênaltis.

Uruguai x Peru (Três gols do Uruguai anulados)
Está aí um dos exemplos em que o VAR mudou um dos classificados. O Uruguai, que era um dos grandes favoritos ao título, jogou contra o melhor terceiro colocado, que era o Peru. Embalados, os uruguaios chegaram a marcar três, TRÊS vezes. Todas bem anuladas, diga-se de passagem. Aos 28 minutos veio a primeira anulação. Após cruzamento de Nandez, Arrascaeta empurrou para as redes. No segundo, Cavani recebe em profundidade e marca um golaço. No terceiro, foi a vez de Suárez marcar. Em todas, o bandeirinha levantou o instrumento de trabalho, anulando os gols por impedimento. Aqui, obviamente que você está pensando que, como o assistente viu a irregularidade, ele anulou por convicção. Vamos isolar, primeiramente, o lance do jogador do Flamengo. Não foi marcada a posição irregular devido à utilização do VAR. Hoje, a recomendação é que se espere o lance acabar para assinalar uma infração. Nos outros dois gols, tivemos a utilização do VAR para confirmar a anulação. E isso ocasionou uma demora maior para o reinício da partida. E, por isso, essa fatídica semifinal entre Uruguai e Peru entrou para nossa lista.

Disputa do terceiro lugar

E como se não bastasse, ou, como já era esperado, o VAR também entrou em cena na penúltima partida da Copa América. O jogo que valia uma medalha foi disputado entre Chile e Argentina. Aos 10 minutos do segundo tempo, quando os hermanos já venciam o jogo por 2×0, Lo Celso atingiu Aranguiz dentro da área e a dúvida pairou no ar. A “telinha” entrou em ação, para angústia de todos na Arena Corinthians. O árbitro Mario Diaz de Vivar assinalou o penal, posteriormente convertido por Vidal. 2×1. Gol que não alterou o rumo da partida, que acabou com o mesmo resultado e vitória dos argentinos pela diferença mínima de gols.

Foto: William Lucas/CA2019

Final (Dois pênaltis: Um para o Brasil, outro para o Peru)

E, como não poderia deixar de ser, a final também teve VAR. Brasil e Peru faziam um jogo bem equilibrado, com os brasileiros liderando a partida por 1×0. No final do primeiro tempo, após cruzamento da direita, a bola bateu na mão do Thiago Silva, que estava caindo no chão após dar um carrinho para cortar o lance. No primeiro momento, o Juiz Roberto Tobar foi recomendado a conferir a jogada. Aos 42 minutos da etapa final, outro lance que chamou a atenção da cabine do VAR. Após boa jogada de Éverton, a bola sobraria limpa para o goleiro Gallese, quando Zambrano abandonou a jogada e foi somente no corpo do jogador do Grêmio. Novamente, Tobar assinalou a penalidade máxima. E essas idas à beira do campo serviu para, apenas, confirmar os penais e, posteriormente, os gols.

Foto: Marcello Dias/CA2019

Com tantas mudanças, teríamos mudanças? Aqui, vamos dividir em duas maneiras diferentes. A primeira será a “nova segunda fase”, ou seja, como seriam as quartas de final caso a tecnologia não estivesse presente nesta Copa América. Na segunda, como seriam as semifinais na atual conjuntura.

Citada tantas utilizações do VAR, agora vamos analisar todas as mudanças que aconteceriam. Como falado anteriormente, foram intervencionados 21 gols. Esse número se refere à todos aqueles que tiveram alguma intervenção da tecnologia. Isso significa que gols anulados, confirmados e checados, além daqueles que foram oriundos da marcação de uma penalidade máxima.

No mundo real, tivemos os seguintes confrontos na segunda fase:

BRASIL x PARAGUAI
VENEZUELA x ARGENTINA
COLÔMBIA x CHILE
URUGUAI x PERU

Porém, teríamos alterações com um número tão alto de checagens, o que afetaria, também, as semifinais e, consequentemente, a final do torneio. O campeão, jamais saberemos, uma vez que ambos os finalistas poderiam estar em campo neste domingo (7).

O superclássico das Américas não aconteceria nas semifinais e, sim, nas quartas de final. A Argentina ficaria na terceira posição, atrás da Colômbia e do Paraguai. A decisão, que aconteceu entre Brasil e Peru, seria possível nas semifinais. Portanto, apenas um estaria em campo no domingo.

Seguindo o mesmo raciocínio, a segunda fase teria sido completamente diferente. Eles seriam:

BRASIL x ARGENTINA
PERU x PARAGUAI
COLÔMBIA x URUGUAI
CHILE x VENEZUELA

Semifinais

Aqui, vamos analisar como seriam as disputas por uma vaga na final. O cenário será aquele que tivemos no mundo real, ou seja, aqueles que realmente aconteceram nos dias 27, 28 e 29 de junho.

Os jogos entre Brasil e Paraguai, que terminou com a vitória dos brasileiros nos pênaltis após o 0x0 no tempo normal, e Argentina e Venezuela, vencido pelos hermanos por 2×0, não sofreriam alterações. Um dos maiores clássicos do mundo aconteceria sem problemas nenhum. O Chile também estaria classificado para a próxima fase, porém, sem a disputa de penalidades máximas. Os rojos tiveram dois gols anulados, ou seja, uma vitória por 2×0.

A única partida que teria mudanças seria Uruguai e Peru. A celeste seria vitoriosa após uma boa vitória por 3×0. A partida, com o auxílio da “telinha”, terminou empatada em 0x0 e com Gallese brilhando ao defender a cobrança de Luis Suárez e garantindo a equipe na terceira fase e, posteriormente, na final. Portanto, teríamos as seguintes semifinais:

BRASIL x ARGENTINA
URUGUAI x CHILE

Quando não vai olhar o VAR…

Ruim com a nova tecnologia, pior sem ela. Parece que virou mania: Quando tem um lance em que os atletas não concordam, sempre tem um que faz o símbolo característico do VAR para pedir o uso.

Na semifinal entre Brasil x Argentina, por exemplo, esse pedido foi comum. Seja no meio do segundo tempo, em um lance envolvendo Arthur e Otamendi na área dos brasileiros, seja no segundo gol dos canarinhos, os hermanos reclamaram muito e saíram na bronca. Messi, um dos melhores jogadores do mundo, saiu reclamando da arbitragem. Para eles, os pênaltis deveriam ter sido marcados e o resultado, diferente.

Outras polêmicas

Em meio a Copa América, o VAR também chamou a atenção após um erro de protocolo, segundo o ex-árbitro Sálvio Espínola. Na vitória do Chile sobre o Equador, Patricio Loustau foi chamado pelo VAR após disputa entre Romário Ibarra, do Equador, e o goleiro Arias. No primeiro momento, nada foi marcado. Porém, na sequência, o argentino que comandava o jogo paralisou a partida para rever a jogada. A decisão? Cartão amarelo e falta para os chilenos. Segundo as próprias orientações do VAR, esse não é um lance passível de revisão e revoltou o comentarista de arbitragem.

Em maio deste ano, Palmeiras e Botafogo se enfrentaram no Mané Garrincha, em Brasília, pela sexta rodada do Campeonato Brasileiro. Na ocasião, Paulo Roberto Alves Junior, árbitro da partida, autoriza o reinício da partida e a paralisa, oito segundos depois para consultar o arbitro de vídeo e marca pênalti para o Verdão. Falta, essa, que definiu o jogo em 1×0 e a vitória da equipe de Felipão.

Vendo um erro de direito, o Botafogo entrou com um pedido de anulação do resultado e, consequentemente, da partida, baseado em uma regra que não permite a consulta ao VAR após a partida estar, novamente, em andamento. O recurso do Fogão foi avaliado, levado a julgamento, mas rejeitado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, o STJD, e a derrota, consumada.

No dia 05 de junho, outra polêmica, mais tratada com normalidade por regras do VAR, do que uma irregularidade na utilização. Na semifinal da Liga das Nações, entre Portugal e Suíça, um lance curioso aconteceu. Aos doze minutos do segundo tempo, a seleção da terra do queijo partiu para o ataque. O meia Steven Zuber invadiu a área e foi derrubado na área pelo português Nélson Semedo. O juiz Felix Brych nada marcou e seguiu com a partida.

Na resposta à ofensiva dos suiços, Bernardo Silva também foi derrubado perto do gol e teve penalidade máxima assinalada pelo árbitro. Porém, como houve aquele primeiro lance, Felix foi avisado e solicitada a revisão do VAR. Por sua vez e, acertadamente, ele voltou atrás, anulou o pênalti dos lusos e marcou para a Suíça, naquele primeiro lance. Novamente, de maneira acertada e sem maiores problemas de regras.

E, então, após tantas polêmicas, o que você acha do VAR, está valendo a pena ou deveria ser retirado do futebol?