{"id":21861,"date":"2022-06-20T23:33:29","date_gmt":"2022-06-21T02:33:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.esportesbrasilia.com.br\/noticias\/?p=21861"},"modified":"2022-06-21T00:34:12","modified_gmt":"2022-06-21T03:34:12","slug":"guarany-nacional-e-o-povo-cruzaltense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.esportesbrasilia.com.br\/noticias\/colunas\/notatico\/guarany-nacional-e-o-povo-cruzaltense.html","title":{"rendered":"Guarany, Nacional e o povo cruzaltense"},"content":{"rendered":"\n<p>Paulo Martins<\/p>\n\n\n\n<p>Por miser\u00e1vel atraso, devido ao glorioso sorteio que os deuses do futebol proporcionaram \u00e0s oitavas de final da Copa do Brasil de 2022, atrasei uma singela homenagem, atrav\u00e9s do futebol, a uma pessoa fundamental em minha vida.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo dia 12 tivemos o dia dos namorados. Lamentavelmente, tocou-me o azar de amar algu\u00e9m t\u00e3o distante fisicamente, ainda que minha ador\u00e1vel h\u00f3spede no cora\u00e7\u00e3o. Gabriela de Melo Prochnow, uma gracinha de mo\u00e7a, me arrematou o peito com a velocidade de Dom Lewis Hamilton, agora cidad\u00e3o brasileiro, pela F\u00f3rmula 1: motivo pelo qual nos juntamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes de se pensar em ingleses tornando-se cidad\u00e3os de uma terra que n\u00e3o se sabia se pertenceria a Portugal ou \u00e0 Espanha, um lugar banhado pelo Rio Jacu\u00ed, pr\u00f3ximo a um afluente da majestosa Bacia do Prata (que ser\u00e1 tema em breve), era ponto de encontro entre os ib\u00e9ricos. &#8220;Vamos nos encontrar l\u00e1 na Cruz Alta&#8221;, dizia meu sogro, Seu Willy, contando sobre o monumento de encontro entre os ga\u00fachos brasileiros e argentinos, que disputaram aquela terra no meio-norte do Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 2021 fez grande seca e calor no estado ga\u00facho. O clima \u00e9 precisamente o oposto de Bras\u00edlia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 chuva: quando chove no Sul, n\u00e3o chove na capital federal. E vice-versa. Hoje, Cruz Alta tem 200 anos. Outrora, fora cotada para ser capital ga\u00facha. Hoje, sua popula\u00e7\u00e3o sai da cidade pela falta de oportunidade em qualquer \u00e1rea que n\u00e3o seja o agroneg\u00f3cio. Situa\u00e7\u00e3o de um meio-Brasil. Com o futebol cruzaltense passara mais ou menos a mesma situa\u00e7\u00e3o: de poderem Guarany e Nacional serem o que s\u00e3o Gr\u00eamio e Internacional, ou, pelo menos, Juventude e Caxias, j\u00e1 n\u00e3o jogam absolutamente nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em minha viagem a t\u00e3o distante terra, n\u00e3o poderia deixar de ver o futebol daquele lugar. Por sorte, em uma hora em que estavam fechando o que parecia um clube de v\u00e1rzea, pedi para entrar, sob a premissa de ser turista. Ali conheci o Taba \u00cdndia, casa do j\u00e1 extinto Sport Club Guarany, que foi, um dos interessantes clubes do interior ga\u00facho at\u00e9 os anos 80, sendo tricampe\u00e3o da segunda divis\u00e3o rio-grandense (1954, 1955 e 1987). Hoje, o clube que recebeu Gr\u00eamio e Inter nos anos \u00e1ureos, est\u00e1 de portas fechadas. Tal e qual seu est\u00e1dio, que recebe n\u00e3o mais que eventos comemorativos ao alugar seu campo outrora sagrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu sogro conta quando ganhou ingressos para ver o Guarany contra o Ypiranga de Erechim e contra o seu time (e da minha mo\u00e7a, portanto), em 1988. &#8220;O Gr\u00eamio trouxe jogadores importantes, mas jogou com time misto. Ganhamos por 2-0. Era uma tarde de s\u00e1bado muito bonita. Aquilo (o Taba \u00cdndia) encheu de um jeito impressionante. Onde tinha espa\u00e7o, as pessoas subiam nos alambrados e nas torres de luz, se empoleiravam, pra assistir o jogo mais de perto. Claro, \u00e9 o Gr\u00eamio, n\u00e9? Campe\u00e3o do mundo (cinco anos antes), como n\u00e3o viriam assistir? Quando os times da capital vinham, era casa cheia. Foi um jogo movimentado, e foi bem comentado na cidade depois. Era sempre uma sensa\u00e7\u00e3o quando tinham esses jogos. Pena que n\u00e3o tem mais hoje.&#8221;, relata. Aquele jogo fez parte da campanha do 26\u00b0 t\u00edtulo estadual do tricolor.<\/p>\n\n\n\n<p>No caminho de volta da UniCruz, do norte ao centro da cidade, fui levado para visitar a cancha do Esporte Clube Nacional. Este time que \u00e9 pura paix\u00e3o pela poesia futebol\u00edstica. Explico: imagine a noite de uma quarta-feira no m\u00eas de julho, temperaturas pr\u00f3ximas a zero grau, um gramado com geada e seu time precisa do resultado para encostar no l\u00edder do campeonato, faltando menos de 10 rodada para o fim. \u00c9 claro que seu time perderia para o Le\u00e3o da Serra por 1-0, no Est\u00e1dio Morro dos Ventos Uivantes. Toda a inspira\u00e7\u00e3o em pura l\u00edngua portuguesa n\u00e3o d\u00e1 a apar\u00eancia devida do est\u00e1dio sem cadeiras e situado ao lado de uma pris\u00e3o. De um time que jogou o Gauch\u00e3o entre os anos 50 e 60, com t\u00edtulo da segunda categoria em 1957. E juro, seus po\u00e9ticos nomes d\u00e3o vontade de torcer, como alguns cruzaltenses que aleatoriamente t\u00eam sua camisa (ao modelo do Boca Juniors), mas que decerto s\u00e3o gremistas ou colorados.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale o detalhe: o futebol ga\u00facho \u00e9 t\u00e3o centrado no extremismo Gre-Nal, que fica dif\u00edcil mesmo aos tradicionais subir de patamar. Que dir\u00e1 os menos expressivos. O primeiro campe\u00e3o ga\u00facho da hist\u00f3ria, Guarany de Bag\u00e9, foi rebaixado em \u00faltimo na edi\u00e7\u00e3o de 2022 do Campeonato Ga\u00facho. E com isso sustento minha tese. Me sobrariam exemplos mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentei achar algum tesouro de ambos clubes da cidade para trazer para Bras\u00edlia, mas n\u00e3o consegui. S\u00e3o, hoje, patrim\u00f4nio guardado por algum torcedor que integra ao rico ba\u00fa da hist\u00f3ria do futebol ga\u00facho. Bem depois de dar ao mundo \u00c9rico Ver\u00edssimo (exemplo m\u00e1ximo dos saberes e da rica cultura ga\u00facha), a cidade de Cruz Alta deu ao (meu) mundo a mo\u00e7a do pau de macarr\u00e3o, que algum de voc\u00eas pode ter ouvido ou lido nas transmiss\u00f5es da Esportes Bras\u00edlia. Ela, que \u00e9 simplesmente algu\u00e9m a quem devo minha energia, minha vontade e minha vida, que tamb\u00e9m ela \u00e9. T\u00e3o \u00fanica quanto seu povo, t\u00e3o perfeita quanto o futebol. Esse tesouro eu tenho e n\u00e3o abro m\u00e3o. Ela \u00e9 minha maior preciosidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Me lembro, hoje, de quando jogamos futebol no campo do quartel da brigada (Pol\u00edcia Militar, no restante do pa\u00eds) e ela conseguiu marcar um gol por m\u00e9rito pr\u00f3prio. Logo em mim, que devo ter sido um dos 20 melhores goleiros da minha cidade, na hist\u00f3ria. Era algo. N\u00e3o deveria subestim\u00e1-la: ela \u00e9 inteligente e safa como Renato Ga\u00facho, forte como Kannemann e Geromel e me protege como Marcelo Grohe fez em Guayaquil, em 2017. Ela faz isso sem ser milagrosa. O amor n\u00e3o \u00e9 milagroso. Pois ela \u00e9 real e eu sabia disso o tempo todo, enquanto n\u00e3o tinha ainda pisado o solo cruzaltense, desfrutado da receptividade de sua gente, descoberto minha vida em um lugar envolto pela soja, no infinito interior do Rio Grande do Sul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Martins Por miser\u00e1vel atraso, devido ao glorioso sorteio que os deuses do futebol proporcionaram \u00e0s oitavas de final da Copa do Brasil de 2022, atrasei uma singela homenagem, atrav\u00e9s do futebol, a uma pessoa fundamental em minha vida. No \u00faltimo dia 12 tivemos o dia dos namorados. 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