A tarde era de festa neste domingo (7), no estádio Abadião. Brasiliense e Paracatu protagonizaram o melhor jogo do Campeonato Candango até o presente momento, e o Jacaré se classificou à terceira final consecutiva do certame. A euforia era tanta que, quando o pentacampeão mundial Lúcio escorou cruzamento de Maikon Leite e fechou o placar em 3×2, já nos últimos segundos de jogo, parte da torcida amarela não se conteve e atravessou o alambrado para comemorar junto ao camisa 3.

Até aí, na medida do possível, tudo certo. Após o apito final, porém, os jogadores do Paracatu partiram para cima do árbitro. No meio do caminho, ouviram provocações dos adversários e formou-se a confusão. Chutes, socos e outros tipos de agressões se sucediam no gramado até a Polícia Militar entrar no relvado para apartar a briga. Nisso, mais uma vez, torcedores localizados na arquibancada à linha de fundo do Abadião voltaram ao campo, mas desta vez com motivos nada nobres.

E então Ceilândia virou Bagdá. O cenário de guerra assustou a todos os presentes. Enfileirados na parte central do gramado, os policiais disparavam bombas de efeito moral e balas de borracha em direção à torcida do Jacaré nas arquibancadas, que correu aos portões de saída. Lá, mais policiais impediam a passagem daqueles que fugiam da confusão. Um soldado abordado pela reportagem da Esportes Brasília disse se tratar de medida de segurança, pois havia focos de briga também nos arredores da praça esportiva.

Soma-se à isso que, no intervalo da partida, algumas “mini-confusões” já haviam se iniciado. Entre elas, com o ex-presidente do Paracatu, Major Elias Andrade. O dirigente foi até o vestiário da equipe da arbitragem bradar contra Vanderlei Soares, que apitava o jogo. Elias foi contido por policiais para que um tumulto generalizado não começasse.

Major Elias Andrade, ex-presidente do Paracatu, foi contido por policiais no intervalo do jogo – Foto: Marco Antônio Tchefy/Agência EB

A atmosfera de medo misturava-se à alegria dos atletas do Brasiliense. Estes comemoravam em parte do gramado. Enquanto isso, um jogador do Paracatu era carregado pelos companheiros aos vestiários. Observadores na tribuna de honra e nas cabines de rádio e televisão afirmaram que ele foi atingido à queima-roupa por uma bala não-letal da PM. A assessoria de imprensa da equipe, porém, nega o boato. Segundo a comunicação do clube mineiro, provavelmente se tratava do zagueiro Breno, que desabou no gramado antes mesmo de estourar a confusão.

A batalha no gramado perdurou, mais ou menos, por cinco minutos após o apito final de Vanderlei Soares.

“Eu não xinguei ninguém”

Quando a situação parecia controlada e a Polícia Militar organizava a saída dos torcedores uniformizados, em fila única, uma jovem aguardava, com semblante tenso, a liberação para deixar o estádio. Um conhecido a chamou para aguardar na fila junto a ele, e argumentava: “ninguém vai te bater. Pode vir”. Com a recusa da moça, ele foi até ela e tentou convencê-la. Ao ouvir outra negativa, passou a puxá-la enquanto ela resistia. Quando finalmente a convenceu a passar pelo bloqueio policial, um agente da Rotam impediu a passagem dos dois batendo com o cassetete, na horizontal, no peito do rapaz.

Logo, o jovem, que vestia uma regata da torcida organizada do Brasiliense, foi envolvido por um grupo de policiais. Estes torceram-lhe o braço direito e alegaram que ele os estava xingando e disparando impropérios. O rapaz desmentiu os PMs enquanto sofria novas agressões à base de cassetete e torções no braço. Os agentes, então, algemaram o torcedor, que a este momento caía em prantos, jurando-lhes não ter dito nada contra a honra ou dignidade dos policiais.

Neste momento, a reportagem da EB estava no local apurando toda a confusão. Em conversa com um dos policiais que faziam a barreira, afirmou-se que, de fato, o rapaz não falara que ofendesse os membros da corporação. Nisso, veio o questionamento do policial ao repórter: “Você é advogado?”, disse, de cara amarrada. Dada a negativa na resposta, o complemento: “Então não encha o saco”. Diante da insistência, o agente garantiu que a reportagem da EB teria o mesmo destino do torcedor caso não parasse de “encher o saco”.

A reportagem não parou, mas teve de se contentar em dialogar com as costas do Policial Militar, um terceiro-sargento (na confusão, não foi possível identificar nome e sobrenome do oficial). Já fora do estádio, o mesmo policial acompanhava o atendimento médico a uma mulher que passou mal devido à grande quantidade de gás lacrimogêneo inalado durante o tumulto. Na foto abaixo, o agente aparece em destaque.

Foto: Olavo David Neto/Agência EB

Infelizmente, pelo texto e pelo puro ofício jornalístico, não há fotos ou vídeos da situação feitos pela reportagem. Há apenas o testemunho de quem presenciou e foi interpelado de maneira autoritária e abusiva por agentes da corporação.

“Guarda esse celular, rapaz”

E finalmente o público pôde deixar as dependências do Abadião. Do lado de fora, cerca de 20 viaturas da corporação militar estavam em prontidão. Ainda sob policiamento ostensivo, os torcedores se dividiam entre ir embora e acompanhar os desdobramentos da confusão. Neste momento, a reportagem da EB, já fora do estádio, tentou apurar com outros agentes o panorama no local. Sem sucesso, sobrou registrar as cenas da violência no pós-jogo e as consequências da correria nas arquibancadas e no gramado.

Enquanto batia as fotos, o mesmo repórter que já fora destratado por um policial era observado de longe por alguns agentes. Foram feitos cerca de dez registros da área externa tomada por viaturas. Quando a última foto foi salva no celular, um torcedor chegou próximo e, solidariamente, instruiu ao repórter que parasse com aquilo. “Guarda esse celular, rapaz”, disse o homem, visivelmente assustado. “Eles já tomaram uns quatro [telefones móveis] e quebraram”.

Por sorte, as fotos já estavam registradas na memória do aparelho. E enquanto a reportagem se encaminhava aos veículos para deixar a praça de guerra que se tornara o Abadião, ainda foi abordada por outros agentes, que questionaram onde iriam os repórteres. Dito que o destino era o conforto e a segurança do lar, mas que o carro estava na região à qual ele não permitia o acesso. O policial, a contragosto, deixou a equipe passar.

Premonição

Já era possível sentir a tensão no entorno do Maria de Lourdes Abadia duas horas antes do jogo. Isto porque, além de Brasiliense e Paracatu, um evento de “empinação de moto” – segundo um participante – também aconteceu no local. Para isso, boa parte do estacionamento do estádio foi cercado com grades e, dentro, motociclistas desafiavam a gravidade com manobras plásticas.

Com término agendado para 17h, o encontro de motocicletas atrapalharia entrada, saída e dispersão da partida, válida pela semifinal do Candangão 2019. De acordo com um agente da Rotam, a Polícia Militar resolveu intervir e negociar com os presentes o encerramento das atividades no local e uma transferência a outra praça – não informada pelo policial, que pediu para não ser identificado. Alguns motociclistas aceitaram e foram escoltados até a outra localidade.

Outros, porém, recusaram-se a deixar o espaço ao redor do estádio ao alegarem que possuíam todas as autorizações necessárias para tocar o evento. E então, segundo relatos, a PM entrou na área demarcada para dispersar os presentes. Houve confusão e alguns participantes foram detidos, mas liberados logo depois. Na ocasião, os agentes não utilizaram equipamentos de agressão, como cassetetes ou armas não-letais. Apenas as algemas foram empregadas.

Respostas

A EB entrou em contato com as partes envolvidas no jogo e no episódio do último domingo. O diretor de futebol do Paracatu, Alisson Guirra, declarou-se triste pelo ocorrido ao final da partida, além de esperar sanções dos órgãos competentes aos responsáveis pela selvageria. “Espero que a federação puna, porque quando não se tem segurança, fica complicado. Mas desejo sorte aos finalistas e que vença o melhor”, comentou o dirigente, ainda consternado pela eliminação.

Por meio da assessoria de imprensa, o Brasiliense indicou que não se pronunciará sobre o ocorrido até que seja divulgada a súmula da partida. Até agora, não houve sinais por parte da diretoria acerca das atitudes a serem tomadas. O Jacaré também se mostrou tranquilo quanto às possíveis punições, enquanto mandante do jogo, aplicadas pelas instituições do futebol candango.

A Esportes Brasília ouviu a Polícia Militar do Distrito Federal através da assessoria de comunicação, para falar sobre o assunto, mas sem sucesso.