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Copa do Mundo

Vladimir Cavalcanti: O último giro da roleta russa

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De Moscou/RUS – Não se trata aqui de uma cena de Cassino, onde o jogador escolhe um número e lança parte ou todas as suas fichas, como no célebre e quase autobiográfico romance de Dostoiévisk. Os lances aqui envolvem apostas, mas os dados são dos deuses e da bolsa de valores de Londres.

Nessa noite de quinta-feira (28), aconteceu a última rodada da fase de grupos e, com ela, o fim para a metade dos que invadiram o território de mais amplas dimensões da Europa, que não pode ser chamada exatamente assim. Eliminados pelos diversos giros da roleta russa, ficou o destaque a decepção em torno da Alemanha, que pegaria no lugar do México o Brasil, numa partida que todos os cidadãos russo que gostam do esporte adorariam assistir. Enfurecidos pela impossibilidade de torcer para um time que admiram e ao mesmo tempo secar o time que por razões históricas não guardam a menor simpatia, disseram para mim que esse vazio histórico retirou boa parte da magia da Copa. Pelo menos para os mais aficcionados, como o expert em futebol brasileiro e historiador, o jovem Акмал Ахроров.

Esse rapaz, repleto de conhecimento e estatísticas, cheio de amor pelo futebol, e pai de três crianças repletas de energia e também colecionadoras de informações sobre tudo quanto é time do mundo, me deu a certeza de que em breve teremos um correspondente internacional russo de primeira linha para um programa divertido e consistente.

Fomos juntos acompanhar dois confrontos pela TV, um na boa e velha de guerra televisão de tubo e a outra na TV por internet que aqui também já é oferecida gratuitamente, desde que tenhamos a paciência de assistir uma propaganda relativamente longa com trilha sonora do Maroon 5. Lá estavam a Colômbia e o Senegal – que se tornou meu time símbolo depois da vitória sobre a Polônia – disputando uma vaga, no estilo confronto direto. Ao mesmo tempo, seguiam em uma monotonia, a desclassificada Polônia contra o Japão, que deixou escapar sua vaga, mais uma vez.

Alimentado pelo aperitivo para o jogo mais importante da rodada, acompanhado por uma Báltica, oferecida e aceita, por se tratar de uma ocasião mais do que especial, seguimos para o jogo principal na FAN ZONE que fica em frente a maior Universidade da Rússia. O cenário, indescritivelmente lindo. A extensão do Parque me fez lembrar do Ibirapuera, embora mais cheio de descidas e subidas com grama e vegetação abundante.

Foto: Vladimir Cavalcante/Agência EB

Foto: Vladimir Cavalcante/Agência EB

Dentre os que ficaram pelo caminho, a Inglaterra também deixou mais uma vez a desejar. Ninguém concebe que o esquadrão que representa o país de fundadores e a liga que movimenta a maior quantidade de dinheiro do planeta e os melhores astros do espetáculo com a bola nos pés tombasse assim. Na hipotética bala randomizada, vejo algumas baixas bem mais prováveis. A isso atribuo a tese louca de que por aqui ganha quem os russos quiserem. Nas palavras de um Czar – cujo nome não me reterei a pesquisar na gaveta 55 – a Rússia ganha guerras porque domina a dinâmica do espaço e do tempo.

E foi dentro dessa dinâmica que me vi enquadrado a responder, na condição de jornalista entrevistado, quem seriam os 5 maiores jogadores da história do futebol. Ampliei a lista, negociei o espaço e teci algumas considerações, para que elucidassem os mais novos sobre as limitações e deficiências de uma lista desse tipo. Em primeiro lugar, não acredito que na posição de um brasileiro, nesse sentido oriundo de uma nação que sempre olhou para dentro de si mesmo, isolada em sua escola e desenvolvendo uma ideia própria sobre quase tudo, seja possível ter a mesma base de análise que um periodista de um país central dos núcleos econômicos do futebol possa ter. Não disponho de longe, sequer da competência de uma garotada que em lugar dos álbuns de figurinha, já nasceu conhecendo craques jogando FIFA em algum Play Station.

Mas deixei minha lista com ele, e em lugar de Maroon 5, fui de 7 nomes, a saber:
7 – Rua Gullit;
6 – Cruyff;
5 – Maradona;
4 – Zico;
3 – Puskás;
2 – Garrincha;
1 – Pelé;
0 – Didi.

O número zero para mim é uma questão de honra, celebração daquele que foi o príncipe da Etiópia, tamanha a elegância de seu futebol e a folha seca que tanto insistiu para que fosse ensinada as crianças brasileiras que o Cristiano Ronaldo acabou aprendendo.

Roletas russas pra lá, ficam as lembranças da divertida Roda Gigante que os brasileiros tanto utilizam para dar seus pinotes. Seja lá o que isso significa pra você, te garanto que é sinônimo de felicidade. E isso vai sobrar por aqui. Somos da paz, somos do amor. Lá estavam eles, diretamente de Bonsucesso no Rio de Janeiro, indumentados como se fossem a ressurreição do Bloco Cacique de Ramos, representantes máximos da nossa cultura indígena, quem sabe uma referência a Darcy Ribeiro em nova roupagem?

Com que roupa eu vou, Sergio Bylucas Brilhante? Ainda não sei, mas acho que você vem de índio.

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