De Moscou/RUS – Trabalho incessante, algum pão e chá, a Copa que havia terminado para o Brasil seguiria fazendo mais vítimas, até chegar a um campeão. Que ideia mais tosca, essa mesma, que coloca um em detrimento de todos. A Inglaterra avançara com sobras contra uma inexpressiva Suécia, num jogo sem sal. O assunto do dia seria outro, pois o povo do país sede despertou para o sonho: porque não ser campeão?

Ninguém poderia imaginar que chegaria até aqui, e isso se tornou um problema de dimensionamento local para a FAN FEST, projetada para atender a população de estrangeiros e o pouco interesse dos moradores locais, mais chegados aos esportes com gelo. E foi assim que os 144 milhões de habitantes, subitamente se viram a torcer para um grupo notável, pelo esforço, pelo trabalho, ainda que sem tradição.

Mas então, como atender a essa demanda, se as negociações com estudantes da Universidade de Moscou – que eram contra o uso do Campus para a instalação da FAN ZONE – levaram a uma dramática redução do número de lugares? No jogo de sexta-feira, sobraram lugares e vazios. Só que agora não se tratava de um mero batalhão, mas do reavivamento do Exército Vermelho, não em Sochi – local do jogo -, mas em Moscou.

Ao chegar na estação de metro que me dava a visão do Estádio Luzhinik, pretendia fazer um pit-stop na mesma e seguir para o lugar de encontro. No entanto, o sistema de som avisava alto, como sirenes de guerra: a fan zone está fechada por ter atingido o limite para uso do equipamento de entretenimento. Eram pessoas parando em qualquer lugar.

Impossibilitado de voltar com o litro de chá para a casa dos meus anfitriões, tive que consumi-lo todo, calculando chegar na área de toiletes da FAN ZONE, que possuía uma alta disponibilidade, mas com ela fechada, seria preciso um outro recurso. Já havia sido avisado de que num aperto, o lance era procurar uma moita e fazer o pipi por ali mesmo. Mas com aquela aglomeração de pessoas, como ser discreto, era minha pergunta. Qual nada, diferentemente da Suíça ou mesmo das leis brasileiras sobre o tema, o russo é muito mais razoável. Aqui, frente à situação e com a enorme disponibilidade das bem cuidadas florestas e bosques, o próprio policial se encarrega de orientá-lo sobre em que lugar poderá aliviar o tormento. Ao subir um monte, lá estavam, para minha desfaçatez, homens e mulheres como que se divertindo com a inusitada liberdade frente à necessidade prática.

Não me dando por vencido, num dia como esse era impossível ficar de fora da festa. Já havia perdido minha viagem para Sochi, por conta de uma mudança de horários 24 horas antes do embarque, e sem smartphone para mostrar os tickets de trem, ficaria mais difícil lidar com a realidade humana e pouco flexível, como percebi ao chegar.

Convencido de que tentar não custa nada, lá fui. Deu certo, entramos. Lá, encontros com desconhecidos que se tornaram amigos, pela graça em comum, o esporte. Olhei para eles, uma multidão ali, vibrando, gritando, dando socos no ar. Não fazia o menor sentido torcer para qualquer outro time que não fosse o Rússia.

Decidido a entrar e depois ter um bom lugar para fazer imagens, lá fui eu, até um certo ponto, a partir do qual ficaria complicado avançar. Ali encontrei meus pares da noite, repleta de esperança que terminou em dor, ainda com o sentido de dever cumprido. Ouvi gritos de guerra, ovacionando o goleiro, histórias sobre o Mar Negro e minha semelhança física com o povo daquele lugar, onde nasceu o futebol na Rússia, senti o calor humano da população, percebi claramente a importância que dão a convivência com brasileiros.

Já com o jogo empatado foi que começou a metamorfose. Um dos que conversava, pegou uma camisa, tirou do corpo e me presenteou. A seguir, um cocar, um óculos e pimba! Eu havia me transformado em uma espécie de híbrido, uma ponte entre Brasil x Rússia. Sem pretensões de ser um novo Lenin ou tomar o lugar de Putin, me convenceu a ideia de que as novas mídias chegaram, e lá estava para recebe-la.

Nos dois planos, a festa. A camisa do CSKA e uma estrela que aponta para a torcedora perfeita para cuidar por um mês da agenda cultural que Alex está perto de participar.

A Rússia e o Brasil perderam, mas e daí se nós ganhamos amigos e por eles também choramos na derrota?

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