Colaborou Rener Lopes

A Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) comprou 12 medidores de decibéis por R$ 165.240,00 no final de 2014 para aferir a intensidade e a pressão do som no Estádio Nacional Mané Garrincha. Cada um dos aparelhos custou, em média, R$ 13.770,00 aos cofres públicos, e a aquisição se deu em pregão pós-Copa do Mundo de 2014.

Segundo apurou a reportagem da Esportes Brasília, o pregão – modalidade de compra pública em que quem oferece menos por um serviço ou bem ganha a concorrência – foi publicado em 02 de setembro de 2014 para a “aquisição de decibelímetros visando ao IBRAM as condições necessárias para o monitoramento acústico do Estádio Nacional de Brasília – Mané Garricha”.

Em 9 de dezembro do mesmo ano a Terracap firmou o contrato 97/014, que garantia a compra dos 12 equipamentos junto à empresa SPECTRIS DO BRASIL INSTRUMENTOS ELETRONICOS LTDA. A companhia é o braço brasileiro da Spectris Group Holdings Limited, dona da Brüel & Kjær Sound & Vibration Measurement A/S, grupo que atua especificamente com mediação de ruídos e qualidade da vibração sonora na Alemanha e na Inglaterra e é considerada uma referência mundial no assunto.

Menos de um ano após a compra, a Terracap doou todo o equipamento comprado para o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do DF (IBRAM), sem qualquer contrapartida. O termo de Doação 020/2015 mostra que o Conselho de Administração da Companhia Imobiliária de Brasília decidiu transferir os bens para o instituto ambiental candango. Em 21 de setembro de 2015, na  1815ª reunião do colegiado, foi autorizada em definitivo a transferência da propriedade do equipamento, que ficou menos de 10 meses diretamente à disposição do Estádio Nacional Mané Garrincha.

Desde 2015 não há notícias da aquisição de equipamentos pela Terracap para medir os ruídos emitidos pelo Mané Garrincha. Corrigindo as cifras desembolsadas há cinco anos com os equipamentos apenas pela inflação do período, o gasto em valores atuais seria de R$ 220.902,52.

Som do estádio é alvo de críticas

Não é de hoje que o volume do som do Mané Garrincha causa desconforto. Desde a reforma do Estádio Nacional o sistema é rejeitado por torcedores e imprensa, tanto nas partidas locais quanto nos confrontos nacionais, pelo volume, intensidade e falta de regulagem. 

Para o presidente da Associação Brasiliense de Cronistas Esportivos (ABCD), Jânio Gomes, o som do estádio é um dos maiores empecilhos para quem trabalha no local. “Atrapalha e interfere diretamente na qualidade das transmissões, exatamente porque o som ambiente se sobrepõe ao áudio gerado e transmitido pelas emissoras de rádio e televisão.” Além disto, a altura do som impede até contato de pé de ouvido “Falando em tom normal, chega a ser praticamente impossível ouvir o colega do lado”, afirmou.

O computador que regula cada uma das caixas de som do Estádio está queimado, o que impede a regulagem e acerto da qualidade sonora. O sistema de som do novo Mané Garrincha é composto por 16 conjuntos de caixas. Cada conjunto conta com oito módulos de equipamentos, somando 32 amplificadores ao todo. O sistema é capaz de gerar uma potência de até 110 decibéis.  

Outro lado

A reportagem da Esportes Brasília contatou as assessorias de imprensa das secretarias de Turismo (SETUR), de Esporte e Lazer (SEL) e da Terracap. A primeira afirmou que a responsável pelo Estádio é a Secretaria de Esporte e Lazer. A segunda não respondeu aos questionamentos específicos a atual condição do Estádio, apenas afirmando que “a licitação foi realizada pela Terracap”. Já a Terracap sequer respondeu ao e-mail da reportagem, que foi enviado três dias antes da publicação desta matéria. 

Na toca do coelho

Essa é a segunda reportagem da série sobre os gastos públicos com o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Na primeira, a EB contou que a empresa 5 Estrelas Sistema de Seguranças, do pai do presidente da Câmara Legislativa, Rafael Prudente (MDB), recebeu mais de 8 milhões de reais para prestar serviços de vigilância e brigada civil no Estádio entre 2016 e 2019.

O Governo do Distrito Federal recentemente passou à iniciativa privada a concessão da exploração e uso do Estádio Nacional Mané Garrincha, do Complexo Aquático Cláudio Coutinho e do Ginásio Nilson Nelson. Segundo o governo, estes centros esportivos custam em torno de R$ 700 mil mensais aos cofres públicos e a receita auferida era insuficiente para pagar os gastos da chamada Arena Plex.